quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Tia Márcia

Hoje eu estava me lembrando dos professores que eu tive na vida (quando a gente vai ficando velho essas coisas acontecem com uma certa frequência).
Tive professores excelentes, inspiradores, e também outros perfeitamente esquecíveis, que muito pouco acrescentaram à minha vida.
Confesso que nunca fui um aluno problemático, sempre fui consciente das minhas obrigações e tive prazer em estudar. Adoro até hoje, aprender é sempre bom.
Eu guardo com muito carinho as lembranças da minha professora da 3ª série primária, lá pelos idos de 1983 (putz), no Colégio São José, de Colatina. O nome dela era Márcia Porchera, e eu me lembro das feições do rosto (ela era branquinha e usava óculos), do sorriso dela, da voz calma e do carinho que ela tinha por nós, por mim. Me lembro que com ela eu aprendi a ter prazer em estudar, eu me dedicava de verdade pra ganhar aquele "parabéns" escrito numa letra bem bonita, e pra sentir o orgulho de ser um dos melhores da sala dela. Ela merecia, e fazia bem também pro meu ego.
Eu não nutria nenhuma paixão platônica pela minha professora, era carinho mesmo, sentimentos bons e vontade de fazer tudo certo.
Uma vez eu briguei com um colega, de porrada mesmo, e ela me colocou de castigo, mas eu via que ela não queria, e o quanto ela estava decepcionada e não esperava aquilo logo de mim! Esse sentimento eu carreguei a vida toda, saber que brigar não era certo, e que eu não podia desapontar as pessoas que me admiravam. Continuei com um gênio forte, mas nunca mais deixei de ser o bom moço, líder de classe e envolvido em todos os projetos das escolas e cursos por onde passei.
A Tia Márcia me abriu as portas do conhecimento, da bondade e do caminho correto. E hoje, 26 anos depois, eu sinto ainda os reflexos da boa educação que ela me deu.
Por isso essa homenagem aqui hoje, Dia do Professor.
Que me desculpem tantos outros professores especiais que eu tive na vida, mas a minha preferida sempre vai ser a Tia Márcia.

Pipoca ou piruá?

Hoje eu tive uma palestra e apresentaram esse texto. Acabei encontrando em vários blogs, mas se você ainda não leu vale a pena. Adorei e resolvi colocar aqui, pra ler de vez em quando e tomar uma sacudida. Ele foi extraído do livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves.




MILHO DE PIPOCA

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.


Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham
que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos:
a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui.
Com isso, a possibilidade da grande transformação também.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si.
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.

Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca
que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente,
se recusam a mudar.
Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa
do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.


E você? Quer ser pipoca ou piruá?



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ciclos



Aniversário é uma coisa muito engraçada. Uns detestam, porque simboliza ficar velho, ou estar sozinho, ou não ter ninguém. Pra mim não. Eu sou como a maioria das pessoas. A gente espera por esse dia em contagem regressiva, o ano inteiro, e daí ele finalmente chega. Você ganha um monte de abraços, um monte de palavras lindas acompanhando os abraços, telefonemas de amigos que você quase não vê, recados no orkut de um monte de gente que você definitivamente não vê, festinha surpresa, festão com convidados ou o velho “bolinho pra quem der uma passada lá em casa”, alguns presentes (antigamente mais, agora bem menos). Mas você sempre espera ser lembrado, e fica triste quando aquele amigo ou aquele parente não deu nem uma ligadinha, nenhum recadinho. E daí, depois que o seu dia passa... começa tudo de novo, a contagem regressiva é zerada e tudo de novo só no próximo ano.

Eu cheguei aos 36 (com um corpinho de 36 mesmo), e me sinto muito melhor do que eu já fui. Deus tem me dado várias chances de fazer as coisas direito, e eu acho que tenho aproveitado todas elas. Como se não bastasse todos os presentes maravilhosos que eu ganhei na minha vida (não materiais, esses não são realmente importantes), eu ainda tenho a oportunidade de consertar uma porção de erros e fazer uma história nova pra mim.
A maturidade ajuda muito a perceber que as coisas não são tão fáceis quanto a gente pensava, que a gente não é tão importante pra humanidade quanto parecia ser, que algumas pessoas não desejam tanto o nosso bem quanto pareciam desejar, e que nada é complicado de verdade, a gente é que complica tudo. Ser feliz é tão simples que parece impossível. Mas o importante é saber que a gente não precisa ser feliz o tempo todo, mas precisa aprender a viver os momentos de felicidade com toda a força que pudermos, aproveitando cada segundo. Estar com quem a gente ama, ganhar um abraço sincero, ouvir um “eu te amo” de quem só quer te ver bem, curtir a natureza, tomar um banho de mar, comer a comida da nossa mãe ou aquela que o nosso amor preparou com tanto carinho, trabalhar no que a gente gosta, dormir um sono gostoso, viajar pra um lugar diferente, ver as fotos de quando a gente era criança, se emocionar com um filme de amor. Me diz agora quantas vezes você já viveu tudo isso, quantas vezes se sentiu amado e feliz de verdade?


Eu só queria hoje agradecer por tudo que eu passei na minha vida, todas as coisas maravilhosas e até mesmo as coisas ruins. Elas me fizeram o homem que eu sou hoje. Com defeitos, fracassos, decepções, tristezas e frustrações, mas também com muitas qualidades, conquistas, sucessos, acertos e acima de tudo, com o desafio de ser feliz e fazer felizes aqueles que vivem comigo.

O desafio recomeçou. Até ano que vem! 365, 364, 363, 362...