Ele acorda se prometendo acabar com o doce. De vez. Porque de nada adianta se esgoelar de tanto correr e depois ganhar tudo de volta. Quase em dobro.
Mas aqueles seres maquiavélicos... eles são cruéis, desumanos, não tem dó nem piedade. Tenho certeza de que, quando ninguém está olhando, eles criam vida e planejam barbaridades.
Fico imaginando a cena:
- Seguinte, pessoal – diz o Nutela 350g + 35g grátis - a gente precisa ser rápido. Na hora que ele voltar do suicídio e abrir a geladeira pra pegar aquela sem gosto, cada um tem que fazer a sua parte. Mesmo que ele não ataque ali, ele precisa desejar, tem que ficar doidão...
- É, ontem foi assim, eu vi a goiabada e o queijo se enroscando, gritaaaando de tanto se oferecer, e nada. Mas depois o Bono deu sorte, e ainda por cima foi no quarto. Ai, ai, pobre de mim, já ouvi dizer que ele não gosta nem do cheiro de mousse de maracujá.
- Torrone, ô torrone - grita impaciente - chama o leite condensado aí, pede pra ele dar um pulinho aqui!
...
- Falaê, nutela. Já tava combinando as coisas lá com a galera.
- E tu convenceu o granulado?
- Tudo belezinha. Vou me posicionar na frente do armário pra ficar no subconsciente da patroa, e o granulado bolinha vai tentar se jogar pra reforçar a idéia. Se tudo der certo, a gente garante umas cinco colheradas, ele não resiste ao casalzinho preferido aqui, hehehe.
Evidente que o comentário gerou uma algazarra, todo mundo falando ao mesmo tempo, revoltado com a soberba do brigadeiro, com coisa que alguma vez ele tinha conseguido se decidir do que ele gostava mais. O mais exaltado era o Hershey’s Crocante:
- Inveja é uma meeerda, faz aí uma listinha e vê se eu não ganho disparado, ô babaca. Muito ruim você ser mais que eu, fora que é um saco ter que ficar lá misturando, muito mais prático levar 4 por R$10 nas Americanas.
No que o pavê berra lá do fundo:
- Ah, querido, vai me desculpar, mas você nem é fino, não tem nada de arte. Eu sou chique, eu vejo a cara de tarado dele quando ela tá me enfeitando, quase que nem consegue me esperar gelar.
- Gente, pelo amor de Deus! – silencia o doce de leite cremoso – Nada de vaidade, a gente precisa unir forças, bombardear, isso é uma guerra. A gente tem que ser sexy, tem que dar uma brilhadinha, fazer o mané babar. Já repararam que ele nem traz mais tantos colegas pra casa? Quando muito vem com aquela desculpinha de que é pras crianças.
- É isso mesmo – responde a bananadinha açucarada– já tô enojada de ter que dividir armário com a barrinha de cereal sem chocolate. Imagina, SEM cho-co-la-te!
O quindim, muito humilde, fica na dele. Sabe que basta estar por ali, o preferido sempre foi ele. "Chega a dar dó desse povinho"!
E a discussão continua, é muita maldade junta num mesmo lugar!
Duvido que isso não aconteça, não consigo acreditar que eu seja tão fraco a ponto de ceder a esses seres espetac... ops, abomináveis, por minha própria vontade.
Fico puto.
Só de raiva vou lá comer alguma coisa. O Nutela, vai ser o Nutela, pra deixar de ser besta e parar de liderar minha perdição...