terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

EXPERIÊNCIA....DE VIDA

Você tem experiência?
No processo de seleção da Volkswagen do Brasil, os candidatos deveriam responder a seguinte pergunta: 'Você tem experiência?'

A redação abaixo foi desenvolvida por um dos candidatos. Ele foi aprovado e seu texto está fazendo sucesso, e com certeza ele será sempre lembrado por sua criatividade, sua poesia e acima de tudo por sua alma.

Redação Vencedora:

Já fiz cosquinha na minha irmã pra ela parar de chorar.
Já me queimei brincando com vela.
Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto.
Já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone.
Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.
Já roubei beijo.
Já confundi sentimentos.
Ja peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro.
Já me cortei fazendo a barba apressado.
Já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que eram as mais difíceis de esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas.
Já subi em árvore pra roubar fruta.
Já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas.
Já escrevi no muro da escola.
Já chorei sentado no chão do banheiro.
Já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando.
Já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado.
Já me joguei na piscina sem vontade de voltar.
Já bebi uísque até sentir dormente os meus lábios.
Já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso.
Já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua.
Já gritei de felicidade.
Já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um 'para sempre' pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol.
Já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.

Foram tantas coisas feitas...

Tantos momentos fotografados pelas lentes da emoção e guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita: 'Qual sua experiência?' Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência... experiência... Será que ser 'plantador de sorrisos' é uma boa experiência? Sonhos!!! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos! Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta: Experiência? Quem a tem, se a todo o momento tudo se renova?

(Publicado no jornal interno do RH - Volkswagen do Brasil - nome do candidato não mencionado)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O ESPELHO DE MAHATMA GANDHI


"Perguntaram a Mahatma Gandhi quais são os fatores que destroem os seres humanos. Ele respondeu:


A Política, sem princípios;
O Prazer, sem compromisso;
A Riqueza, sem trabalho;
A Sabedoria, sem caráter;
Os negócios, sem moral;
A Ciência, sem humanidade;
A Oração, sem caridade.


A vida me ensinou que as pessoas são amigáveis, se eu sou amável,
que as pessoas são tristes, se estou triste,
que todos me querem, se eu os quero,
que todos são ruins, se eu os odeio,
que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrio,
que há faces amargas, se eu sou amargo,
que o mundo está feliz, se eu estou feliz,
que as pessoas ficam com raiva quando eu estou com raiva,
que as pessoas são gratas, se eu sou grato.


A vida é como um espelho: se você sorri para o espelho, ele sorri de volta.
A atitude que eu tome perante a vida é a mesma que a vida vai tomar perante mim.

Quem quer ser amado, ame.
Nas lutas habituais, não exija a educação do outro.
Demonstre a sua.
Nas tarefas do bem não aguarde colaboração.
Colabore, por sua vez, antes de tudo.
As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade."


(Lindo texto, "roubado" do FB de uma amiga querida, PMC)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dona Paulina

Quando eu tinha nove anos, morava ao lado de uma senhora chamada Dona Paulina.
Dona Paulina era a vizinha mais chata que uma criança como eu poderia ter. Sabe aquela figura que parece uma bruxa de contos de fadas, com aquele nariz enorme e uma verruga na ponta?
A gente (eu e cinco ou seis amigos da mesma idade) adorava jogar bola em qualquer hora do dia ou da noite, sempre acompanhado de gritos e discussões, e algumas vezes a bola até batia no portão da casa da velha. Invariavelmente Dona Paulina vinha brigar com todo mundo, chamava nossas mães e ameaçava até punições mais severas.
Como toda criança criada com muitas outras crianças e brincando na rua, a gente adorava também soltar algumas pérolas de palavrões em decibéis inimagináveis, fruto de uma briga que esqueceríamos em poucos minutos, mas a carne-de-pescoço da Dona Paulina vinha sempre passar um sermão envolvendo Deus, educação e outras coisas meio chatas pra uma criança ouvir.
Quando meus pais não estavam em casa, eu aproveitava para aprontar aquelas coisas que não se faz com os pais em casa, certo de que nada seria descoberto se eu apagasse as pistas corretamente. E não é que, quando eu já estava certo da impunidade, aquela velha fofoqueira contava tudo pra minha mãe como se estivesse falando uma receita? E ainda vinha toda inocente, trazendo doces e  bolos, posando de boa vizinha!
E muitas outras histórias de perseguição e implicância por parte da Dona Enjoança.
Definitivamente minha infância foi marcada negativamente pela presença daquela senhora desagradável, tema de minhas constantes reclamações aos meus pais e choramingos aos meus amigos de escola.

 *******


Hoje, com 37 anos, me lembrei de uma vizinha que eu tive na infância chamada Dona Paulina.
Lembro de várias fotos de quando eu era bebê, no colo da Dona Paulina, e ela cheia de carinhos e atenções comigo.
Lembro de muitas conversas que ela tinha com minha mãe, da presença dela em festas na minha casa, de várias vezes que eu acompanhava minha mãe à casa dela, e de como ela me deixava mexer nas coisas e descobrir aquele ambiente diferente da minha casa.
Lembro de alguns presentes que ela me deu, e de como ela nunca se esquecia de me trazer um mimo quando viajava.
Lembro de quando ela recebia a visita de uma filha que morava em Belo Horizonte, e que junto vinham uns netos que a gente adorava brincar, mas que só víamos umas duas vezes por ano, e de como ela fazia coisas deliciosas pra gente comer e deixava todo mundo ficar empoleirado na varanda de sua casa, comendo e conversando até a hora de dormir.
Mas a coisa que eu nunca esqueço da Dona Paulina é a Torta Todesca (tão maravilhosa que merece ser escrita com letra maiúscula) que ela fazia e sempre mandava um pedaço grande lá pra casa, porque ela sabia que era o doce que eu mais gostava. Lembro que às vezes ela fazia uma inteira só pra gente, e lembro até da última vez que eu comi a tal tortinha, uma vez que ela mandou especialmente pra mim pela minha mãe, quando eu já era cavalão e já morava em outra cidade. Que gentileza!
Grande vizinha, a Dona Paulina. Tenho saudade dela.

*****

Dona Paulina faleceu alguns anos atrás, e eu só soube um tempo depois.
Me lembrei dela esses dias e resolvi fazer uma homenagem.
E quando pensei nessa história, vi como as coisas parecem dramáticas e assustadoras quando somos pequenos,  quanto ela parecia má quando eu era guri e o quanto eu consigo enxergar as coisas mais positivamente agora que eu cresci e amadureci.

Assim é a vida. Quando tudo parece um inferno, às vezes basta olhar de uma maneira diferente.
Mas vai dizer isso pra uma criança de nove anos...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Oração de Padre Pio



Fica comigo, Senhor, pois preciso da tua presença para não te esquecer. Sabes quão facilmente posso te abandonar.


Fica comigo, Senhor, porque sou fraco e preciso da tua força para não cair.

Fica comigo, Senhor, porque és minha vida, e sem ti perco o fervor.

Fica comigo, Senhor, porque és minha luz, e sem ti reina a escuridão.

Fica comigo, Senhor, para me mostrar tua vontade.

Fica comigo, Senhor, para que ouça tua voz e te siga.

Fica comigo, Senhor, pois desejo amar-te e permanecer sempre em tua companhia.

Fica comigo, Senhor, se queres que te seja fiel.

Fica comigo, Senhor, porque, por mais pobre que seja minha alma, quero que se transforme num lugar de consolação para ti, um ninho de amor.

Fica comigo, Jesus, pois se faz tarde e o dia chega ao fim; a vida passa, e a morte, o julgamento e a eternidade se aproximam. Preciso de ti para renovar minhas energias e não parar no caminho. Está ficando tarde, a morte avança e eu tenho medo da escuridão, das tentações, da falta de fé, da cruz, das tristezas. Oh, quanto preciso de ti, meu Jesus, nesta noite de exílio.

Fica comigo nesta noite, Jesus, pois ao longo da vida, com todos os seus perigos, eu preciso de ti. Faze, Senhor, que te reconheça como te reconheceram teus discípulos ao partir do pão, a fim de que a Comunhão Eucarística seja a luz a dissipar a escuridão, a força a me sustentar, a única alegria do meu coração.

Fica comigo, Senhor, porque na hora da morte quero estar unido a ti, se não pela Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.

Fica comigo, Jesus. Não peço consolações divinas, porque não as mereço, mas apenas o presente da tua presença, ah, isso sim te suplico!

Fica comigo, Senhor, pois é só a ti que procuro, teu amor, tua graça, tua vontade, teu coração, teu Espírito, porque te amo, e a única recompensa que te peço é poder amar-te sempre mais. Como este amor resoluto desejo amar-te de todo o coração enquanto estiver na terra, para continuar a te amar perfeitamente por toda a eternidade. Amém.

(Me foi apresentada pelo Leandro no curso Amigos de Deus, do PCJ da Praia do Suá, em 26/09/2011, como sugestão para orar após a comunhão. Linda, perfeita e como uma luva pra mim, que venho tentando voltar a caminhar de mãos dadas com Jesus)

Jullyklêywersson da Data Control

Como tantos outros, Jullyklêywersson nasceu numa família sem muitos recursos.
Morava em uma casa simples de dois cômodos em São Pedro XVIII, que apesar de estar localizada numa encosta quase vertical, tinha uma bela vista para o mangue.
Desde pequeno teve que assumir responsabilidades, para ajudar os pais. Cuidava dos sete irmãos pequenos e nem tinha tempo de jogar bola com os amigos. Talvez por isso acabou virando vascaíno, coitado.
Mas contrariando todos os prognósticos pessimistas, Jullyklêywersson levou a sério o pouco tempo que tinha para estudar. Prestava atenção nas aulas do Colégio Maria Ortiz, e fazia todas as tarefas, lendo até altas horas com ajuda dos tocos de vela que Padre Afonso cedia pra ele após as missas na Catedral.
Depois de alguns bicos e pequenos trabalhos (ajudante de pedreiro, assistente de pula-pula na Praça dos Namorados, motoboy e caixa da C&A), assim que completou o curso por correspondência que fazia no IUB (Instituto Universal Brasileiro), Jullyklêywersson conseguiu um emprego fixo que ele queria há muito tempo: instrutor de access da Data Control. Era o orgulho da família e estava feliz como nunca.
Por isso, combinou com alguns amigos de saírem para comemorar seu primeiro salário.
Iam ao Pagode do Aloir, point da galera do bairro. No sábado, porque não poderia ir ao pagode de quinta - nesse dia Jullyklêywersson tinha curso de flauta doce (era sensível, o garoto) na Fafi.
******************************
No sábado, Jullyklêywersson colocou sua melhor roupa, passou a colônia da Avon que o pai ganhou da patroa e foi para o Aloir, sentindo que aquele era seu dia, alguma coisa ia acontecer.
E o destino realmente tinha armado uma boa para o rapaz.
Algumas poucas horas depois do pagode começar, Jullyklêywersson avistou na multidão uma garota com um sorriso lindo, sambando como uma legítima mulata carioca e exalando felicidade, que imediatamente o contagiou e parou seu mundo.
Sem pensar mais, Jullyklêywersson abriu caminho e foi até sua musa, parando a alguns metros e fixando seu olhar no gingado da gata. Percebendo a paquera, a garota se mostrou receptiva, e Jullyklêywersson não perdeu tempo, indo direto até ela:
- Oi
- E aí?
- Belê?
- Da hora...
- Curtindo aí?
- Ô
- Sempre aqui?
- Toda quinta e sábado
- Você não me é estranha, mas não me lembro de ter te visto aqui - nunca esqueceria se tivesse.
- Ah, eu sou comum, vai ver é alguém parecido
- Noooossa, comum você não é mesmo! Muito gata!
- Ai, brigada
- Você estuda, ou trabalha?
- Faço Administração na FAVI, e estagio num banco
- Nossa, alto nível! Que tudo!
( a garota achou "que tudo" meio estranho, mas continuou o papo)
- E você, rala onde?
- Sou instrutor de access na Data Control
- Ai, que legal! Eu já dei aula lá, de Fórmulas Hiperbáricas Absolutas Constantes do Excel!
- Nossa, sabia que eu te conhecia! Vi sua ficha do RH, quando ajudei a Glauciléia...
- Ai, adoro a Glauci!
- ...a organizar uns arquivos. Você é a Gercilayne, não é?
- Nossa, que memória boa! Sou sim, mas pode me chamar de Gercy. E qual a sua graça?
- Jullyklêywersson, um seu criado - e beijou suavemente a mão de Gercy...

O papo rolou, no domingo foram assistir Flamengo x Vasco (Gercy era rubro-negra roxa), marcaram outras saídas, engataram um romance e até viajaram juntos pra Búzios.
Depois de algum tempo, terminaram o relacionamento repentinamente. Dizem que o "que tudo" evoluiu e complicou a situação, mas ninguém confirmou essa história.
Até hoje ninguém sabe o que aconteceu realmente com Jullyklêywersson  e Gercilayne, mas nenhum dos dois perdeu a esperança de encontrar a meia que calce seus pés gelados num dia frio de inverno em Tabuazeiro...


(Dedicado à the best estagiária,  fundadora do sindestagiees, que já curtiu olhos verdes e pelancas brancas, e que sai para caçar todas as quintas e sábados. Estamos na torcida!)

domingo, 25 de setembro de 2011

Vida de corredor

Um mês antes, a inscrição (geralmente sou um dos primeiros, tarado).
Daí fico contando os dias. Nesse meio tempo, prometo que vou treinar legal, levar à sério. Mas um dia tá frio, no outro tem Igreja, outro eu tô cansado...e fico confiando de que vai dar tudo certo mesmo que eu não mereça.
Na véspera, deixo tudo arrumado: bermudas (uma térmica, outra da Adidas), camisa do evento com número de peito fixado com alfinetes, tênis com meia curtinha, joelheira pro joelho direito (que dói um pouquinho), gel de carboidrato, respire melhor, boné, MP4 carregado, relógio com monitor cardíaco e uma pulseirinha powerbalance (se não ajudar, também não atrapalha).
Daí chega o dia.
Acordo 6:30h, como uma coisinha (iogurte com maçã, banana e mel, geralmente), tomo um banho caprichado e visto toda a parafernália.
Peço pra quem estiver acordado pra tirar a foto oficial, e vou indo. Nem sempre tenho acompanhantes, depende do local e da animação. Se não der, então vou de bus. E já gosto do povo me olhando de lado, tipo "ah, é corredor", mesmo que estejam pensando "esse gordinho vai chegar em último".
Chegando no local marcado, já vou entrando no clima. Adoro ver o povo se aquecendo, tirando foto, procuro alguém que eu conheça, jogo conversa fora enquanto começo o alongamento. Depois alongo com a galera, porque sempre tem um gritando animado em cima de um trio ou um carro de som. E já vai dando aquele frio na barriga, inclusive porque eu sou "pouco" ansioso.
Posicionado, é dada a largada. Faço o sinal da cruz, pedindo pra Deus me permitir chegar no fim inteiro, e ligo o cronômetro assim que passo pelo tapete com o chip.
No começo vou sentindo meu corpo e controlando a respiração, economizando fôlego mas tentando esquentar logo os músculos. E prometo pra mim mesmo que não vou dar nem uma andadinha (em vinte e três corridas só não andei em uma). Claro que com o tempo sinto a falta de treino e o peso em cima das panturrilhas, e no meio da corrida já tô cansado, enfrentando o diabinho que insiste que eu não vou conseguir, tentando me concentrar só nas músicas e bebendo muita água em todos os postos de hidratação. Daí vejo as pessoas passando por mim, e não me conformo com algumas ultrapassagens, e ficamos trocando de posição durante um bom tempo. E quando faltam uns dois quilômetros, começo a focar em quem eu não quero que chegue na minha frente. E daí começa a perseguição, e a superação dos meus limites. Às vezes não dá, fico com medo de me arrebentar e acabo me conformando - até porque é preciso reconhecer que um idoso, uma gordinha ou um anão podem chegar antes de mim (e pode crer que eles chegam), porque eles merecem, porque eles treinam e são melhores mesmo do que eu, e é isso que eu preciso lembrar quando eu prometo que vou treinar pra próxima.
Muitas outras vezes eu consigo, e fico tão feliz como se estivesse ganhando a prova.
Mas o grande barato é competir comigo mesmo, é fazer aquele último esforço num sprint improvável para chegar.
E chegar é bom demais! Especialmente quando faço um tempo legal, ou supero o mesmo tempo da mesma prova no ano passado - essa é a minha meta pessoal.
Chego exausto, cheio de dores, encharcado de suor e água gelada, mas morrendo de orgulho da minha medalha. Tenho carinho e orgulho de todas elas, e fico namorando cada uma por um bom tempo. Já pensando na próxima, não deixo escapar nenhuma.
Aliás, tem uma nova vindo por aí.
Entro no site e acesso o link de inscrição...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Casa Arrumada (Carlos Drummond de Andrade)



Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…

E reconhecer nela o seu lugar.