quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dona Paulina

Quando eu tinha nove anos, morava ao lado de uma senhora chamada Dona Paulina.
Dona Paulina era a vizinha mais chata que uma criança como eu poderia ter. Sabe aquela figura que parece uma bruxa de contos de fadas, com aquele nariz enorme e uma verruga na ponta?
A gente (eu e cinco ou seis amigos da mesma idade) adorava jogar bola em qualquer hora do dia ou da noite, sempre acompanhado de gritos e discussões, e algumas vezes a bola até batia no portão da casa da velha. Invariavelmente Dona Paulina vinha brigar com todo mundo, chamava nossas mães e ameaçava até punições mais severas.
Como toda criança criada com muitas outras crianças e brincando na rua, a gente adorava também soltar algumas pérolas de palavrões em decibéis inimagináveis, fruto de uma briga que esqueceríamos em poucos minutos, mas a carne-de-pescoço da Dona Paulina vinha sempre passar um sermão envolvendo Deus, educação e outras coisas meio chatas pra uma criança ouvir.
Quando meus pais não estavam em casa, eu aproveitava para aprontar aquelas coisas que não se faz com os pais em casa, certo de que nada seria descoberto se eu apagasse as pistas corretamente. E não é que, quando eu já estava certo da impunidade, aquela velha fofoqueira contava tudo pra minha mãe como se estivesse falando uma receita? E ainda vinha toda inocente, trazendo doces e  bolos, posando de boa vizinha!
E muitas outras histórias de perseguição e implicância por parte da Dona Enjoança.
Definitivamente minha infância foi marcada negativamente pela presença daquela senhora desagradável, tema de minhas constantes reclamações aos meus pais e choramingos aos meus amigos de escola.

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Hoje, com 37 anos, me lembrei de uma vizinha que eu tive na infância chamada Dona Paulina.
Lembro de várias fotos de quando eu era bebê, no colo da Dona Paulina, e ela cheia de carinhos e atenções comigo.
Lembro de muitas conversas que ela tinha com minha mãe, da presença dela em festas na minha casa, de várias vezes que eu acompanhava minha mãe à casa dela, e de como ela me deixava mexer nas coisas e descobrir aquele ambiente diferente da minha casa.
Lembro de alguns presentes que ela me deu, e de como ela nunca se esquecia de me trazer um mimo quando viajava.
Lembro de quando ela recebia a visita de uma filha que morava em Belo Horizonte, e que junto vinham uns netos que a gente adorava brincar, mas que só víamos umas duas vezes por ano, e de como ela fazia coisas deliciosas pra gente comer e deixava todo mundo ficar empoleirado na varanda de sua casa, comendo e conversando até a hora de dormir.
Mas a coisa que eu nunca esqueço da Dona Paulina é a Torta Todesca (tão maravilhosa que merece ser escrita com letra maiúscula) que ela fazia e sempre mandava um pedaço grande lá pra casa, porque ela sabia que era o doce que eu mais gostava. Lembro que às vezes ela fazia uma inteira só pra gente, e lembro até da última vez que eu comi a tal tortinha, uma vez que ela mandou especialmente pra mim pela minha mãe, quando eu já era cavalão e já morava em outra cidade. Que gentileza!
Grande vizinha, a Dona Paulina. Tenho saudade dela.

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Dona Paulina faleceu alguns anos atrás, e eu só soube um tempo depois.
Me lembrei dela esses dias e resolvi fazer uma homenagem.
E quando pensei nessa história, vi como as coisas parecem dramáticas e assustadoras quando somos pequenos,  quanto ela parecia má quando eu era guri e o quanto eu consigo enxergar as coisas mais positivamente agora que eu cresci e amadureci.

Assim é a vida. Quando tudo parece um inferno, às vezes basta olhar de uma maneira diferente.
Mas vai dizer isso pra uma criança de nove anos...

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